segunda-feira, 17 de agosto de 2015

APONTAMENTOS A RESPEITO DO PERFIL DO OBSERVADOR DE AVES

Desde quando iniciei a observar aves meu interesse por conhecer esta atividade se deu em todos os sentidos, não somente como um hobby, como é para muitas pessoas, mas percebi um vasto campo de oportunidades que vão desde benefícios físicos e intelectuais, até mesmo, numa ocupação formal e próspera.

Para muitas pessoas, algumas eu conheço e tenho a satisfação de tê-las como amigos e companheiros de observação de aves, esta prática surgiu como uma “luz no fim do túnel”, pois sofriam como algum problema como solidão, desentendimentos familiares, estima baixa, depressão, dentre outros que comumente se escuta falarem na atualidade.

Fico feliz quando sinto vibrar o aparelho celular ou leio um post na pagina do grupo com uma mensagem dizendo: “Partiu passarinhar, quem topa?”, “Bora passarinha?”, “Buritizal as 15h30, quem topa?”, bem como outros que não possuem os mesmos problemas acima citados e escrevem: “Indo passarinha, se tiver mais um comigo são dois”. O que é possível perceber é que esta atividade vem proporcionando uma melhora sensível na qualidade de vida dos praticantes, fruto de uma mescla de fatores que a observação de aves reúne, como o afloramento da inter-relação e da interdependência do homem com a natureza, proporcionando um resgate e a reconexão do Ser Humano com suas raízes bem como a interação entre os indivíduos de um grupo, gerando as afinidades, amizades, confiança, segurança, ou seja, a fraternidade.

A observação de aves vem ganhando, no Brasil e no mundo, cada vez mais adeptos. Um termômetro deste crescimento é a quantidade existente de Clube de Observadores de Aves, os famosos COAs. Numa pesquisa rápida pelos principais sites de observação de aves nacionais, observou-se a existência de mais de trinta COAs no país, sendo que a região sudeste é a campeã com aproximadamente 46% deles, seguida pelas regiões Sul e Centro-oeste com respetivamente 21% e 20%, como mostra o gráfico abaixo.

GRÁFICO 01 – CLUBES DE OBSERVADORES DE AVES NO BRASIL
Fonte: Diversos sites das internet que tratam de observação de aves (2015). Adaptado por Merighi (2015).

O interesse pelas aves também ocorre por parte de quem não sai a campo para observá-las, sendo este um grupo crescente e relevante, visto que muitas pessoas hoje se intitulam “passarinheiros da internet”, os quais visitam os sites e blogs especializados neste setor, bem como as paginas especializadas nas redes sociais em seus momentos de lazer e entretenimento. Um exemplo interessante é o COACGR – Clube de Observadores de Aves de Campo Grande/MS, que, quando iniciou possuía pouco mais de trinta integrantes, todos ávidos por ir a campo observar e registrar aves e hoje, em sua pagina no facebook, possui mais de oitocentos integrantes, entretanto, somente os primeiros continuam passarinhando a campo.

Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Comercio Exterior y Turismo do Peru que resultou na publicação intitulada “O Perfil del Observador de Aves – El Turismo em Cifras” de 2014, identificou que no mundo existem em torno de 9,2 milhões de pessoas que são integrantes de associações de observadores de aves, classificou-os em três classes distintas, sendo a primeira a dos “Hardcore”, grosso modo “Especializados”, aqueles que em suas viagens se dedicam exclusivamente a observação de aves. São altamente especializados, ficam em torno de vinte dias no local observando aves e seu gasto médio diário gira em torno de U$ 160,00 dólares. A maioria são homens na faixa etária entre os 36 a 50 anos.

A outra classe é a dos “Softcore”, ou seja, um nicho um pouco mais “light” ou um pouco menos especializado, que em suas viagens dedicam em torno de 40% de seu tempo a observação de aves e o restante às outras atividades e segmentos que o local oferece. Semelhante à classe dos hardcore, na maior são homens e costumam ficar até dezoito dias no local gastando em média U$ 155,00 dólares por dia.

A terceira classificação são os “Ocasionales”, sendo aqueles que em suas viagens dedicam menos de 40% para observar aves. Estes também compõem um nicho bastante interessante do ponto de vista turístico, pois são pessoas que chegam a ficar em torno de vinte e cinco dias no local visitado e seu gasto médio diário gira em torno de U$ 96,00. Este grupo apresenta um número maior de mulheres integrantes e também são, na maioria, mais jovens que os das outras duas classes. O gráfico abaixo mostra a proporção existente nas três classes.

Outro dia, resolvi que precisava conhecer mais a respeito desta vasta atividade e de quem as pratica, então, utilizando os recursos existentes hoje na internet elaborei uma pesquisa virtual utilizando o Google Formulários bem como o Facebook para divulgação. O objetivo foi de conhecer melhor o perfil das pessoas que praticam a observação de aves.

Conseguiu-se um numero considerável de respostas, contando com a participação de pessoas, em sua maioria na faixa etária entre 40 a 50 anos que iniciaram a observar aves por gostarem da natureza, para ter um hobby, por influencia de parentes e amigos, por amor e trabalhar com atividades afins a natureza, dentre outros motivos.

Em sua maioria, essas pessoas já vêm observando as aves a mais de quatro anos, o que demonstra uma experiência no assunto, visto que para observar aves o praticante tem que ter a “veia” de pesquisador a partir do momento que não basta registrar, é preciso também identificar e conhecer a respeito do comportamento da ave, seu canto, suas cores e outras infinidade de interações que existem entre o bicho e o ecossistema. Os participantes também responderam que consideram como alguns benefícios intelectuais que podem ser obtidos com essa prática o conhecimento sobre a natureza e sua conservação, a respeito das técnicas de fotografia, gravação e filmagem, dentre outros.

Para esses observadores a simples observação é importante, porém, o registro com qualidade também, já a maioria têm o habito de, após as atividades de observação e registro, identificar, catalogar, colecionar e publicar suas imagens em redes sociais, blogs próprios e sites especializados. Outro aspecto interessante é o fato de estes observadores não registrarem somente aves em suas saídas a campo, colecionando também registros de insetos, flores, dentre outros.

Boa parte respondeu que gosta de observar as aves sozinho e também em grupo, o que foi confirmado quando a maioria respondeu que pertence a algum tipo de grupo, clube ou agremiação com esta finalidade. Os locais de observação que mais interessam e motivam as viagens dos observadores é o Pantanal, a Floresta Amazônica, a Caatinga, a Lagoa do Peixe-RS, Nova Guiné, a Chapada Diamantina, a Mata Atlântica, Colômbia, Galápagos, Parque Nacional das Emas, Equador, África, América Central, estando entre os mais citados, Pantanal, Floresta Amazônica e Mata Atlântica.

Uma característica interessante é que os passarinheiros podem ser considerados um público com alta qualidade de consumo, pois viajam em busca de observar aves em locais e biomas diferentes do seu local de residência fixa, contribuindo assim, de forma significativa com o incremento do orçamento dos locais visitado, buscando e pagando o necessário para desfrutarem de equipamentos de hospedagem, alimentação e transporte de qualidade bem como serviços especializados, como é o caso do serviço de Guia de Observação de Aves, considerado por mais de 90% dos participantes da pesquisa como importante.

Na opinião deles, esse profissional deve reunir algumas características fundamentais para que realize um trabalho satisfatório. Algumas são básicas como o conhecimento sobre a natureza, a sociedade e a avifauna local, já outras são comportamentais como ser disciplinado, educado, possuir características de liderança, honestidade, boa vontade, bom humor, humildade, empatia, respeito e paciência. A fluência em idiomas, em especial o Inglês e o Espanhol também foi citada como importante, assim como o conhecimento científico, experiência em andar por trilhas e matas.

Dentre alguns conhecimentos mais avançados, sob o ponto de vista da observação de aves, foi citado também como uma característica desejável nos Guia de Observação de Aves a destreza de identificar o canto das aves, plumagens, hábitos, locais e frequência de ocorrência de determinadas espécies, inclusive as migratórias, entre outras particularidades das aves. No que diz respeito ao compromisso com o trabalho algo importante foi mencionado evidenciando que o guia deve ter zelo com os horários combinados. Os participantes entendem também que o guia deve possuir equipamentos e guias com fotos e informações das aves locais para melhor ilustrar as explicações para os leigos.

Concluindo, é inegável que a observação de aves vem crescendo continuamente no Brasil, seja pelo número progressivo de adeptos nacionais, de eventos especializados no setor, do interesse dos estrangeiros em nossa avifauna, de equipamentos e dos profissionais que vêm se especializando para guiar e proporcionar conforto e qualidade aos grupos de passarinheiros que aqui chegam.

Lembrando que o Brasil figura entre os primeiros países no mundo em número de espécies catalogadas e sendo uma quantidade delas endêmicas com certeza essas características nos coloca na pauta de consumo dos observadores mundiais. Isto posto, é preciso se especializar para atendê-los de maneira satisfatória, o que significa encantá-los formatando roteiros, produtos e serviços de qualidade focados no perfil desse público e, com certeza o restante do serviço ficará a cargo da beleza, cores e canto de nossas aves.


GEANCARLO MERIGHI