sexta-feira, 24 de julho de 2015

O TURISMO DE OBSERVAÇÃO DE AVES EM MATO GROSSO DO SUL

A “Observação de Aves” ou Birdwatching em inglês pode ser entendida como uma modalidade de ecoturismo que tem como objetivo a observação de aves livres seu habitat natural, a qual, além de favorecer a valorização e conservação da avifauna, é uma forte ferramenta para educação ambiental podendo ser praticada por crianças, adultos e idosos de ambos os gêneros.


Uma pesquisa recente realizada pelo Ministério do Turismo Peruano indica que no mundo 9,7 milhões pessoas são membros de organizações de observadores de aves e sete delas reúnem 98% desse público (Figura 01). Interessante também é que desses, em torno de 6,2 milhões tem predisposição de viajar para fora de seu país para observar aves e 2,4 milhões tem vontade de visitar o Peru para realizar observações de aves. Considerando que o potencial peruano possui semelhança aos nacionais, podemos considerar esse público para direcionarmos nossos esforços de captação.



FIGURA 01: ORGANIZAÇÕES DE OBSERVADORES DE AVES

Fonte: Perfil do Observador de Aves (El Turismo en Cifras) – 2013 – PromPerú – Ministério do Comercio Exterior y Turismo do Peru.

Pede-se notar na figura acima que, do publico total identificado, 50% são norte americanos. Em 2006, o Governo Norte Americano estimou uma movimentação anual de 80 bilhões de Dólares através da atividade de observação de aves, bem como que, naquela época, estimava-se em 48 milhões o número de praticantes naquele país. É sabido que a observação de aves é uma atividade altamente difundida por lá e que é uma atividade que as famílias utilizam como lazer e entretenimento, o que pode ser notado até mesmo em literaturas e alguns de seus filmes que são reproduzidos por aqui.

Isso demonstra que os Estados Unidos pode ser uma dos principais países para se investir esforços de promoção visando à atração de observadores de aves para viagens ao Brasil e Mato Grosso do Sul.  No entanto, há de se procurar conhecer mais o perfil deste público para que possamos entender melhor o que eles querem e necessitam em suas visitas de observação. Vejo que, guardadas as devidas proporções e diferenças culturais e até mesmo educacionais, acredito que essência do observador de aves se assemelha em todo mundo.

Uma de suas características peculiares é a mesma de um colecionador, ou seja, se eu gosto de observar aves, que ter em minha coleção o maior número de registros possíveis. Enquanto turistas, são considerados de alta qualidade de consumo, ou seja, aqueles que possuem um gasto médio significativo e que causa um impacto positivo nos locais visitados.

A pesquisa peruana apontada anteriormente, indica que os turista observadores de aves mais radicais, ou seja, aqueles que viajam essencialmente para esse fim, chegam a ficar 18 noites no destino e gastam em torno de 3.200 dólares o que dá um gasto médio diário aproximado de 160 dólares por dia. Da mesma maneira, também exigem equipamentos e serviços de qualidade e, aqui não estou falando só do estrangeiro, o público nacional reúne as mesmas características de gasto, motivação e exigências de consumo.

Guias especializados e fluentes em idiomas e conhecedores da avifauna local, hotéis confortáveis, transportes seguros, roteiros pré-definidos, garantia mínima de observação, alimentação saudável e adequada, dentre outras, são algumas das exigências desse público que, altamente especializado, se prepara para visitar um determinado local e chegam sabendo o que querem ver e consumir.

No Brasil, em uma matéria publicada pelo Ministério do Turismo em 2012, estimava-se que naquele ano mais de 30 mil turistas brasileiros e 3 mil estrangeiros já movimentavam esse mercado em nosso país. Na atualidade, de acordo com uma reportagem exibida em neste ano pelo programa “Terra da Gente”, estima-se que esse número de brasileiros praticantes dessa atividade já chega a 50 mil.

O Mato Grosso do Sul (MS) é um Estado brasileiro privilegiado pela sua posição geográfica e pela sua biodiversidade. Situado praticamente no centro da América do Sul, possui em seu território fragmento de três dos seis biomas que ocorrem no Brasil, são eles: Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica.  Turisticamente falando, isso favorece o Estado na formulação de produtos turísticos de natureza, em especial o Ecoturismo contemplativo.

Outros fatores importantes a serem considerados e que fortalecem ainda mais o arcabouço de possíveis ofertas turísticas em Mato Grosso do Sul, são sua história e cultura. O Estado foi palco da Guerra da Tríplice Aliança (Guerra do Paraguai), lar de uma das maiores nações indígena do país, a Guaicuru, foi colonizado por diversos povos, entre eles os Gaúchos, Portugueses, Mineiros, dentre outros que, juntamente com os vizinhos sul-americanos Paraguai e Bolívia, promovem uma explosão cultural miscigenada que se retrata nas danças, músicas, gastronomia, artes, artesanatos, etc.

Entretanto, pouco desse potencial tem sido explorado turisticamente e, atualmente, contamos com apenas uma Rota consolidada, a “Rota Pantanal Bonito”, que reúne em seus roteiros as belezas naturais e culturais da Serra da Bodoquena, tendo sua expressão no município de Bonito, com suas águas cristalinas que promovem um verdadeiro espetáculo de contemplação e imersão na natureza, bem como, a região do Pantanal, representada principalmente pela Estada Parque Pantanal Sul, situada em Corumbá onde natureza e cultura se misturam promovendo uma experiência inesquecível aos seus turistas.  

Esta rota se desenvolve em apenas oito dos 79 municípios do Estado e, nesses demais municípios, existe um grande potencial a ser desenvolvido e explorado, capaz de fortalecer o produto turístico estadual e torna-lo mais competitivo em nível nacional e internacional.

A pesar de o turismo de observação de aves ainda ser incipiente, é indiscutível a qualidade da nossa avifauna. No Brasil, existe catalogadas mais de 1.900 espécies de aves, o que nos torna o segundo país em número de espécies no mundo, ficando atrás apenas da Colômbia. Em Mato Grosso do Sul, existem estudos que indicam que contamos com mais 600 espécies registradas, sendo que, somente na região pantaneira é possível existir mais de 1.000 espécies diferentes, ou seja, muito ainda a ser registrado e catalogado.


Em 2013, foi lançado pelo Governo do Estado o primeiro encarte promocional do visando motivar turistas a vir observar aves em nosso território (Figura 02). Nele, ressaltam-se na região da Serra da Bodoquena os municípios de Bonito, Jardim e Bodoquena, na região pantaneira os municípios de Miranda, Corumbá e Ladário, na região central a Capital Campo Grande e na região norte o município de Alcinópolis e Costa Rica.

 FIGURA 02: MATO GROSSO DO SUL – OBSERVAÇÃO DE PÁSSAROS
 Fonte: Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul - 2013

Esses municípios realmente contam com algum tipo de iniciativa nessa modalidade de ecoturismo, sobressaindo Bonito, onde há uma mescla de imersão da natureza e contemplação de fauna e flora. Neste município já existem alguns, porém ainda poucos equipamentos e serviços especializados em observação de aves. No entanto, o que vem acontecendo é que outros prestadores de serviços que anteriormente se dedicavam essencialmente à visitação dos atrativos consolidados do município estão diversificando sua matriz de possibilidades e colocando em suas prateleiras a observação de aves como um novo produto.

Em Jardim encontra-se um local privilegiado, uma dolina que fica em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural - RPPN, um local que vem se tornando ponto obrigatório para os observadores de aves que aqui chegam, pela possibilidade que o relevo oferece de observar e registrar as Araras-vermelhas-grandes (Ara chloropterus) e outras aves pousadas ou em voo em um ângulo que permite registrar dorso da ave.

Bodoquena é onde existe a maior incidência do Gavião Real (Harpia harpyja), sonho de consumo, no bom sentido é claro, de quase cem por cento dos observadores de aves por se tratar da maior ave de rapina no Brasil. Na região pantaneira, compreendendo Corumbá e Miranda, existe uma explosão de aves de diversas espécies, grandes, pequenas, coloridas, rapinantes, pernaltas, com destaque para o Tuiuiú, a maior ave pernalta do Brasil e símbolo do pantanal sul-mato-grossense.

A Capital começou a despontar como um possível destino de observação de aves a partir de 2012, quando começou a se se formar os primeiros grupos para observação de aves no município e culminou na cria do Clube de Observadores de Aves de Campo Grande – COACGR. Naquela época, havia registrados no WikiAves, um dos principais sites de postagens de observação de aves do Brasil, pouco mais de 70 espécie. Hoje, como o trabalho realizado pelos observadores de aves locais, esse número já passa de 300 espécies.

Alcinópolis e Costa Rica se destacam pela proximidade do Parque Nacional das Emas, onde é possível observar espécies raras, vulneráveis e ameaçadas que constam na Lista Vermelha, como o Bacurau-de-rabo-branco (Hydropsalis candicans), o Galito (Alectrurus tricolor).

Outros municípios também despontam com produtos a oferecer e registros de espécies como Aquidauana, onde já existem pousadas pantaneiras com produtos específicos e guias especializados e Terenos, onde os Galitos (Alectrurus tricolor) e uma diversidade de Sporophilas sp. convivem harmoniosamente em determinados locais.

Outras possibilidades se despontam, como é o caso dos parques estaduais que já vislumbram nessa atividade uma forma de renda para o parque poder cumprir com seu dever de ser um ambiente de educação ambiental e de conservação do patrimônio natural, desta maneira, muito ainda há de ser explorado, catalogado e trabalhado em nosso Estado para adentrar mais profundamente nesta modalidade de ecoturismo. Não resta dúvida, a olhar pelos poucos produtos que temos e o número crescente de visitantes que aqui chegam com o propósito de observar aves que, em breve e com investimento público e privado, seremos um dos expoentes no Turismo de Observação de Aves do Brasil.

GEANCARLO MERIGHI

terça-feira, 21 de julho de 2015

POR QUE VOCÊ GOSTA DE VÊ PASSARINHO?

Certo dia uma pessoa me perguntou por que eu gosto tanto de passarinhar. Respondi a ela e ela entendeu meus motivos, porém, essa pergunta me instigou e refletir um pouco mais a respeito deste assunto. Não posso dizer que são os mesmos os motivos que levam as pessoas que gostam de observar aves a sair de suas casas, muitas vezes numa madrugada de sábado, domingo ou feriado após uma semana intensa de trabalho e ir à busca de, simplesmente, observar aves em seu habitat natural.

Outra situação é que, quando digo habitat natural, estou falando de matas, florestas, cerrados, savanas, veredas, campos limpos e sujos, rios, mares e canais, brejos, lagos, lagoas, dentre outras áreas onde existe a possibilidade de encontrar aves livres que possam ser observadas e mantidas livres. Inerente as característica destes locais de observação de aves bem como das próprias aves e que, quase sempre se fala também de longas caminhadas, barro na bota, rasgos nas roupas, subidas e decidas, carrapicho, calor ou frio, mosquito, mutuca, muriçoca, dentre outras situações que esta saudável prática envolve. 


Mas, posso apenas falar de mim, daquilo que me movem em realizar e enfrentar as coisas que falei para observar aves, pois entendo que cada um tem um motivo para fazer aquilo que gosta e lhe dá prazer.  Uns o faz por necessidade, outros por hobby, outros pelo motivo de entender que lhe faz sentir bem e revigora suas energias e outros porque gostam de se encantar com os encantos que a Natureza nos proporciona e muitas vezes, ou quase sempre, passam despercebidos à maioria das pessoas.

Eu era uma das pessoas que não dava muita importância às aves, muito menos sabia de suas funções no equilíbrio ecológico, além é claro do poder que elas têm de tornar as manhãs mais suaves com seus cantos melodiosos. Sinceramente, antes de voltar minha atenção também para este “mundo” eu não o via e ouvia, não conhecia a abundancia de sons e cores que envolvem o mundo dessas criaturas voadoras.  E posso dizer que é bem envolvente, fascinante e encantador.


Comprei uma câmera fotográfica, semiprofissional com detalhes de configuração que eu nem imaginava para o que servia, não era das melhores, porém, fez parte deste começo. Agora entendo que passarinhar faz também que fiquemos mais ligados, até mesmo no avanço tecnológico. Um dia cheguei mais cedo no trabalho, e tenho a felicidade de trabalhar dentro de um parque urbano de Campo Grande no Estado de Mato Grosso do Sul, chamado, Parque das Nações Indígenas, a fui fotografar algo. 

Atrás da nossa sede, existe um bosque com diversas espécies de árvores, era mês de julho e quase todas estavam com poucas folhas.  Notei no topo um galho com dois pássaros e fotografei. Posso dizer que esta não foi uma simples fotografia, a pesar de não ter muita qualidade, foi ai o start para eu descobrir o mundo da Observação de Aves que eu nem sabia que existia. Ao chegar em casa, como já conhecia a espécie por ser bem comum, um Bem-te-vi, pensei o seguinte, o que faço com esta foto?


Esse pensamento me levou ao movimento, fui pesquisar a respeito da espécie, descobri que seu nome comum varia de lugar para lugar, que só existe um nome científico para ela no mundo inteiro, Pitangus sulphuratus, que vem do Tupi e significa, grosso modo, “Papa-moscas Amarelo Enxofre”, se alimenta de insetos e frutos, que emite sons diferentes de acordo com a ocasião e necessidade, que apresenta, em determinadas situações, principalmente de stress, um leque amarelo em sua cabeça, que possui varias subespécies, que se distribui por todo Brasil e em outros países das Américas, que existem lendas e crendices a seu respeito, algumas até ligando a ave como um dos responsáveis por indicar com seu canto, Jesus a seus carcereiros, que pode apresentar indivíduos com a plumagem “Luteinismo” ou “Flavismo”, dentre outras informações interessantes a respeito de, só uma das mais de 10.000 espécies catalogadas no mundo.


Bem, a partir daí comecei a conhecer um mundo rico e cheio de novidades, que mexem com o intelectual de quem se interessa por ele. Logo fui convidado por um amigo para fazer parte de um grupo que estava se criando chamado Clube de Observadores de Aves de Campo Grande – COACGR e comecei a passarinhar junto com os outros membros. Agora inicia outra qualidade espetacular desta prática, a aproximação entre as pessoas gerando amizades.

O que posso afirmar é que venho conhecendo pessoas, ampliando minhas amizades e, principalmente, desmistificando alguns conceitos pré-concebidos que é sujeito se ter por um ou por outro, ou seja, no final estou conhecendo melhor as pessoas e novos fazendo amigos.


Por que eu gosto de passarinhar? Esta é a pergunta que me levou a escrever este texto, e a resposta, no meu caso é: porque me faz bem e gosto de descobrir e observar, que neste caso significa ver e ouvir, os encantos da Natureza.

Comecei então a buscar mais informações a respeito da observação de aves, já que gosto é preciso conhecer. Inicialmente era realizada apenas por pesquisadores ornitólogos. Desde então vem crescendo a cada dia no Brasil e no mundo em número de adeptos, sendo eles, idosos, adultos, crianças, homens e mulheres que gostam de ocupar seu tempo livre com atividades produtivas, seja em grupo ou, até mesmo, individualmente.


Com esse crescimento, as coisas foram surgindo, ficando mais acessível, comum, como é o caso do nome com a qual a observação de aves foi carinhosamente batizada pelos praticantes: “Passarinhar”. Nosso país, por conta de sua dimensão continental, apresenta diversos biomas em seus limites, cada um com uma avifauna diversificada e encantadora, que vem despertando interesse de “passarinheiros” do mundo todo em vir conhecer nossas belezas aladas. 

Passarinhar não se resume apenas em ir ao campo observar ou fotografar aves, podemos dizer que esta é uma de suas fases, que começa na decisão de onde ir e qual(s) ave(s) se pretende observar. Partindo desta ideia, é necessário que o observador faça um planejamento de sua saída a campo, bem como, do material que irá utilizar. Durante a passarinhada, existem algumas técnicas que auxiliam na observação que podem ser utilizadas, sendo que, algumas delas como o Playback, que significa reproduzir mecanicamente o som de determinada ave buscando trazê-la para perto e fazer os registros, deve ser utilizado com parcimônia visando o bem-estar da ave. Ao final, quando voltamos para casa, é a hora de identificar as espécies, catalogar e pesquisar para conhecer mais profundamente seus hábitos, etc.


Desta maneira, entende-se que a observação de aves é uma prática que favorece o desenvolvimento da mente e do intelecto, desenvolvendo uma consciência sistêmica e ambientalmente positiva da inter-relação e interdependência do ser humano com a natureza, podendo aflorar no caráter do praticante uma consciência melhorada da necessidade de conservá-la para as gerações futuras.

Desenvolve e aprimora também a parte fisco e motora, ou seja, o corpo também é favorecido pelos exercícios de caminhada ao ar livre, pelo campo ou mata fechada, contribuindo para uma melhor mobilidade, coordenação motora, funções respiratórias, atenção, visão, dentre outros. O chamamos de espiritual também se fortalece por meio da interação com a natureza, pela variedade de cores, cantos e movimentos das aves que encantam os observadores, afugentando o estresse, relaxando o corpo, a mente e fortalecendo o espírito e tornando as pessoas mais sensíveis, calmas, tranquilas e por que não dizer, menos ranzinza.


Finalizando, passarinhar desenvolve uma consciência holística, ou seja, o praticante passa a ter uma imagem única da natureza, da sua função e do papel de cada coisa, seja animal, vegetal ou mineral no funcionamento e equilíbrio desse (eco)sistema, que chamamos de planeta “Terra”.




GEANCARLO MERIGHI

sábado, 11 de julho de 2015

BICHOITA (Schoeniophylax phryganophilus)


NOME EM INGLÊS: CHOTOY SPINETAIL 

ORDEM: PASSERIFORMES

FAMÍLIA: FURNARIIDAE

Registrei esta ave em Jaraguari/MS.

GEANCARLO MERIGHI